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CRIAÇÃO

 

 O BOSQUE

           

             O cachecol era marrom, disso ela tinha certeza.

Foi em novembro, talvez final de outubro, porque o céu já dava sinais de desamparo total. E disso também dependia a excitação do inverno. A excitação do escuro e do alheio. A expectativa do aconchego a ser conquistado, lutando contra as adversidades.

Lembrou-se disso ao se deparar com o rio, o mesmo rio que a cegueira de Borges devia ter amado, em cada uma de suas identidades. 

            O cachecol era marrom, de cetim. Sentia-se uma dama naquele fetiche de beleza feminina. Uma dama passeando com seu cavaleiro.

            «Vem », ele dizia, « vem, que o cavalo ficou amarrado no bosque ».

Os dois entraram na senda, beirando altas árvores nuas, os dedos nus, entrelaçados. A singeleza da mão nunca se mostrara tão austera.

            Ao sair do bosque, pouco depois, ele tinha a certeza de que algo suficientemente importante tinha ocorrido, lá dentro, para abrir o coração de sua mulher.

Porém, ela não só não lhe deu a mão na saída, como sumiu da região, não deixando atrás de si nenhum rastro, a não ser a indagação do rio visto pelos olhos de Borges.

O cachecol era marrom, disso ela tinha certeza, e talvez ainda estivesse em algum recanto do armário.

           

 

De: Prisca Agustoni. A neve ilícita. São Paulo: Nankin, 2006. Fotografia da capa: Pietro D'Agostino.

 



Escrito por prisca agustoni às 11h13
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Escrito por prisca agustoni às 11h07
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